A bibelô da penteadeira velha da Dona Maria

dois-vestidos

Por Sheila Sabag*

Olhando minhas mensagens diárias, centenas, provenientes de vários grupos, não por minha opção, mas porque as pessoas vão me incluindo, e eu permaneço, às vezes por curiosidade. Dentre as fotos recebidas, uma me chamou atenção, pelas mensagens subliminares e porque me lembrou de uma imagem de minha infância, a penteadeira velha da Dona Maria.
Dona Maria, morava em uma casa grande e bonita, ficava na esquina da rua onde eu morava e na qual havia um ponto de ônibus. Entrávamos na casa de Dona Maria, eu e minha mãe, pela porta dos fundos. Atravessávamos a cozinha, e um corredor com uma passadeira corroída pelo tempo com muitos quadros nas paredes, até chegarmos à sala, um amplo espaço cheio de janelas e móveis velhos. Mas não permanecíamos na sala, era no quarto que ficávamos. Minha mãe me sentava em uma cadeira estofada, que ficava em um canto próximo à janela. Ela e Dona Maria, entravam por uma porta, de onde eu ouvia algumas falas cochichadas e risadas. Embora não soubesse o que acontecia lá dentro, me sentia aliviada com os burburinhos, pois sabia que ela não havia sumido e nem estava machucada como as mães das outras meninas da rua. Esperava ansiosa pelo seu sorriso, quando colocava a cabeça para fora da porta e com toda atenção e calma me dizia: “já estou indo”.
Parada ali ao lado da janela, meu olhar se fixava no outro canto do quarto, onde havia uma grande penteadeira que me atraia, tinha vontade de levantar e ir lá pertinho sentir com meus dedinhos curiosos de criança, o que meus olhos enxergavam. Eram vidros coloridos, caixas cheias de fitas e laços, um espelho maior do que eu e pequenos objetos que brilhavam. Aquela penteadeira velha, eu conhecia como a palma da minha mão, todos os riscos, os cantos lascados, o espelho manchado, os pés tortos, as toalhinhas de crochê, os puxadores de porcelana, seus desenhos de rococós. O que eu não conseguia ver nitidamente eram aqueles objetos brilhosos, via parte deles, somente os que estavam na frente. Passaram-se semanas olhando aquela penteadeira, até que certo dia me enchi de coragem. Olhando para a porta em que minha mãe e Dona Maria entraram, lentamente levantei da cadeira. Rapidamente segui em direção à penteadeira, com os olhos fixos em um objeto, o que estava na frente de todos, era ele que eu via do outro lado da sala. Quando estava bem perto, estiquei o braço para alcançá-lo, foi quando uma mão segurou a minha delicadamente. Assustada, olhei, era Dona Maria, que me disse:
– Estes objetos não podem ser tocados, minha pequena, porque são tão delicados que quebram. Eles servem apenas para se olhar.
Ainda muito gentil, continuou:
– Querida, eles não são brinquedos, se chamam bibelôs, você pode olhar quanto quiser, mas não pode tocar, nem pegar.
Observei que os bibelôs da penteadeira velha da Dona Maria, eram diferentes uns dos outros, e estavam posicionados em grupos. Havia, no centro, panelinhas, xicrinhas com pires, bulezinhos, vasinhos e outros objetos de cozinha. Animais peçonhentos, patos, répteis, sapos, morcegos, e muitos ratos, ficavam do lado direito. Os transparentes, em maior quantidade, eram diferentes uns dos outros, uma mescla de todos os tamanhos e formas, e se encontravam no lado esquerdo. As bonecas, bailarinas e imagens delgadas de mulheres, com chapéu e envoltas em roupas bordadas e de renda ficavam a frente das demais, esses eu chamei de As Bibelôs.
Minha mãe me contou que Dona Maria, colecionava bibelôs, que pedia às pessoas conhecidas que trouxessem de suas viagens “souvenir” para que pudesse guardar junto aos demais. Disse ainda que muitos deles não têm valor algum, podem ser comprados em qualquer lugar, outros são pequenas fortunas, que jamais teríamos condições de pagar caso eu os quebrasse.
Mostrou-me As Bibelôs, disse-me que elas representavam as meninas através das bonecas e as mulheres em suas profissões de bailarinas e donas de casa. Mas que aquela que eu queria pegar, era uma personagem de história, uma princesa chamada Branca de Neve. Falou-me também que essa princesa era amiga dos animais e das crianças, mas vivia com sete anões, que a defendiam de uma bruxa malvada.
Com minha mãe, aprendi que bibelôs são enfeites frágeis e delicados, que só podem ser olhados, portanto inúteis, e ficam fora do alcance das crianças.
A fotografia à qual me referi, foi a “vernissage” da primeira dama brasileira: a exposição de seu trabalho apresentado à nação, através de um texto de escrita própria, intitulado Criança Feliz.
Aquela jovem mulher, infantilizada através de um vestido de rendas azul, com cabelos divididos ao meio, presos nas laterais, como os penteados feitos nas meninas por suas mães, para que os cabelos não caiam sobre os olhos. Linda, loira, alta, magra, delicada, aparente inocência quase virginal, de fala obediente, em pé, cercada por homens velhos, era o retrato da bibelô da penteadeira velha da Dona Maria.
Aos olhos da população, que viu através de um espelho preto, no canto de suas salas, a caricatura da mulher bibelô, em nova versão voluntária de “Branca de Neve” palaciana, num simulacro de protetora das crianças pobres, que por sua inocência e bondade, merece ser protegida pelos senhores guardiões da moralidade e dos bons costumes, os “homens de bem”, que podem ser chamados, digamos, de Anões do Orçamento**.
Arquétipo de imagem fantasiosa do século XVIII da menina, moça mulher, aliás, nome de projeto que está sendo desenvolvido pela Secretaria ESPECIAL de Políticas para as Mulheres, do Ministério da Justiça, é personagem criada para dar características mais aceitáveis, a um governo ilegítimo, rançoso, e bolorento.
Certamente em algumas penteadeiras velhas nas casas das Donas Marias, ainda encontremos As Bibelôs, mas estas, não mais representam as meninas e mulheres, estão ali postas, por outros motivos. Podem ser apenas enfeites, portanto, inúteis, ou de interesse puramente comercial.
Enquanto criança, eu não entendia porque Dona Maria ganhava tantos ratos, mas depois de anos concluí que deve ser porque estão em todos os lugares e são fáceis de comprar.
Os bibelôs de cristal, na sua diversidade e em número maior, permanecem invisíveis.
Quanto às panelinhas, estão guardadas em armários velhos e mofados, e permanecerão assim, ali, vazias, pelos próximos 20 anos.

*[1] Ativista feminista, Secretária Executiva Adjunta da Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, integrante da Casa da Mulher Catarina.

*[2] Escândalo dos Anões do Orçamento – Em 1993, a CPI dos Anões do Orçamento investigou 37 parlamentares por suposto envolvimento em esquemas de fraudes na Comissão de Orçamento do Congresso Nacional.